Mulheres: do julgamento impiedoso à invisibilidade
Venho dando algumas entrevistas sobre meu mais recente livro, Sexo 60+: prazer sem data de validade, e notei que, além de abordar o preconceito em relação à sex...
Venho dando algumas entrevistas sobre meu mais recente livro, Sexo 60+: prazer sem data de validade, e notei que, além de abordar o preconceito em relação à sexualidade dos idosos, invariavelmente acabo falando sobre como nós, mulheres, somos julgadas impiedosamente ao longo de nossa juventude e, a partir de uma certa idade, nos tornamos “invisíveis”. Nossos corpos são avaliados, classificados, comparados, comentados, às vezes ridicularizados – até por aqueles que dizem nos amar. O resultado? Uma permanente autovigilância, acompanhada do que considero mais nefasto: passamos a acreditar que só existimos se alguém nos reconhece, nos aprova e, assim, chancela nossa existência
Idosas em festa à fantasia: mulheres são julgadas desde a juventude e, a partir de uma certa idade, se tornam “invisíveis”
Age without limits
Desde cedo, absorvemos comentários (inclusive os maldosos) como se fossem um fato, e não uma simples opinião. Aos 30, já fomos diligentemente treinadas para perseguir uma inalcançável imperfeição, acumulando neuroses sobre o corpo e procedimentos estéticos – que, cada vez mais acessíveis, funcionam como um rolo compressor pasteurizando fisionomias.
A menopausa era um portal que conduzia ao fim da condição feminina, mas a última década trouxe mudanças significativas. Gosto sempre de lembrar da demissão da atriz Isabella Rossellini pela marca francesa Lancôme, em 1996. Aos 42 anos, a justificativa dada pelos executivos (todos homens) foi de que ela era “velha demais”. Em 2018, sob a liderança de uma CEO mulher, Rossellini foi recontratada, aos 63 anos.
No entanto, o bônus da longevidade vem apresentando um efeito colateral de garras afiadas: prolongou o tempo de duração do escrutínio sobre as mulheres. Atrizes como Demi Moore (63 anos) e Nicole Kidman (59 anos) exibem silhuetas anoréxicas e, com frequência, são flagradas se locomovendo apoiadas em outras pessoas. À medida que envelhecemos, a magreza mórbida se torna um fator de risco relevante, associado a quedas e quadros de osteopenia e osteoporose. Precisamos de corpos fortes, e não esquálidos!
A atriz Leandra Leal, prestes a completar 44 anos, lamentou em entrevista a retomada do padrão de extrema magreza, afirmando que a sociedade trata o corpo feminino como algo público que pode ser debatido, julgado e padronizado. Sarah Jessica Parker respondeu à enxurrada de críticas sobre seus cabelos brancos e rugas com duas perguntas: algo semelhante ocorre com os homens? E o que ela deveria fazer a respeito do seu envelhecimento: parar o tempo ou desaparecer? Sim, o próximo passo é se tornar invisível.
Temos que deter a máquina de moer carne feminina. O roteiro imposto às mulheres ganha contornos de pesadelo. Agora, é imperioso estender a juventude até a velhice. Quem não consegue deve sair de cena.
Um último registro: em 2013, um paparazzo fotografou Betty Faria na praia usando um biquini. Os internautas empregaram termos como “velha baranga”, cobrando que o adequado seria estar maiô. A atriz, com 72 anos na ocasião, enfrentou ironicamente a patrulha ao perguntar se deveria ir à praia de burca.
Envelhecemos, mas seguimos amando o que sempre nos deu prazer. Quem tem mais de 60 viveu a revolução sexual e não pode, nessa altura da vida, se tornar inimiga do seu corpo. Aliás, o clitóris, com suas 8 mil terminações nervosas, resiste ao tempo e não sofre nenhum tipo de atrofia.
LANÇAMENTO:
Aproveito para fazer um convite para o lançamento do Sexo 60+: em São Paulo, dia 14, na Livraria da Vila de Pinheiros; no Rio, dia 22, na Livraria Argumento, no Leblon – em ambos, haverá um bate-papo às 19h, com convidados muito especiais. Na capital paulista, com a psiquiatra Carmita Abdo, fundadora e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade, da USP; no Rio, com o urologista e cirurgião Pedro Saraiva.